Documento 8570/10
Posted by Ruben S on June 28th, 2010 filed in CrónicasÉ um desperdício de cerveja. Grande parte da humanidade que conheço está a divertir-se num espaço fechado, fazendo figas para que ganhe a equipa que se tem de apoiar com os olhos colados ao televisor. Dentro da caixa, a bola salta de um lado para o outro a pontapés bem pagos – 800 euros por dia para cada jogador da Selecção Portuguesa, já agora. Os meus olhos não seguem a bola. Não sou um cidadão exemplar. O meu coração não presta porque não é azul e branco, nem verde, amarelo e vermelho, nem cor-de-laranja, nem nada. Não presta porque não tem causa, porque se recusa a vestir uma cor que não é a sua. «Cut the crap. You just don’t like football, sweets, that’s all. It doesn’t make you any better. Besides, this is really NOT about football. There’s something else», diz-me ela. «Yeah, I know, that’s why I don’t like it».
Estou sentado a ouvir um álbum antigo de Sonic Youth. A voz da Kim Gordon está particularmente sensual nesta música. Têm-me dito que sou um indivíduo fora de moda. Concordo. Gosto muito de música. A melomania também é um espaço fechado, como o futebol. Parece-me que a sociedade inteira vive em espaços fechados. O futebol, a música, a religião… O país. O país é um grande centro comercial. Espaços fechados estão ao abrigo da realidade, que é por isso que existem. Casas para trabalhar e casas para a diversão. A evolução histórica tratou de criar uma arquitectura propícia à organização e catalogação da humanidade. Há um rumo certo para cada um de nós. Há um lugar na Rua Sésamo. Eu sou o Ferrão – resmungão, como se está a ver… Talvez tu sejas o Monstro das Bolachas? Porque vejo-te sempre a enfardar. Mas sabes, há coisas que não devias enfardar porque fazem mal à saúde. Fazem com que te esqueças de ti. Mas talvez seja esse o teu objectivo, a inexistência. Enfim, cada um sabe de si… Volto a dizer que há um lugar para todos. O marketing não falha – é a grande ciência da modernidade!
Mas há indivíduos claustrofóbicos. Não gostam de paredes e quando olham para cima é o tecto que vêm, mas com os olhos da mente vêm céus que não são feitos de cimento. Que tratamento havemos de dar a estes indivíduos? Onde arrumá-los?
No passado dia 26 de Abril, o conselho da União Europeia reuniu em Luxemburgo para discutir o tema “Radicalização na União Europeia”. Após muito paleio e café, foi aprovado o Documento 8670/10. Passou despercebido. Do que se trata? É uma espécie de programa para vigiar e obter dados sobre indivíduos que se suspeite estarem a experimentar um processo de radicalização. A medida foi concebida inicialmente para o controlo de grupos terroristas islâmicos, mas estendeu-se perigosamente a indivíduos que possam ser apelidados de radicais. Esta resolução abre um precedente grave. O perigo resulta do facto de ser abrangente, ou melhor, de ser tanto abrangente quanto o poder político que vigore num determinado país o queira, uma vez que não define o que é um indivíduo radical. O erro desta medida é justamente o de não definir o conceito. Como a sua aplicabilidade não se restringe à vigilância de grupos radicais que decidiram optar muito claramente pelo uso da violência para atingir os seus fins, corre-se o risco de outro tipo de radicais, que não pretendem matar nem ferir ninguém, mas que tão-somente têm uma opinião politicamente incorrecta e a manifestam de uma forma puramente verbal, serem impedidos de exercerem a tal famigerada radicalidade. De serem a pouco e pouco impedidos de fazer propaganda daquilo em que acreditam. Pode estar-se em desacordo com o extremismo ideológico, mas um ideal extremo não resulta necessariamente em violência. Há até grupos que são radicais por se oporem de forma tão vincada à violência subtil da sociedade em que vivemos, cuja praxis está radicada em boas tradições humanistas. O Documento 8670/10 é uma aberração maior do que muitos radicais. Desaprove-se.
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