A Jaula – “Their whole civilization has been destroyed [...] the world doesn’t care”
Posted by Filipe Gracio on June 20th, 2010 filed in CrónicasA situação do cerco de gaza é relativamente simples:
* A Amnistia Internacional diz que o cerco é um “castigo colectivo de 1.4 milhões de palestinianos em clara violação de Lei Internacional”. Salientando que 80% das pessoas em gaza estão, por causa do cerco, “dependentes de ajuda internacional”
* O secretário geral das Nações Unidas diz que o cerco “é errado “ e “deve ser terminado”
* A Human Rights Watch(HRW) diz que o cerco é “violação da lei internacional” e “castigo indiscriminado contra uma população civil”. . A HRW noticia também que o exército israelita demonstra “desrespeito pelas vidas de civis em gaza”.. Mais ainda A HRW documenta que o cerco de israel é também um cerco às pessoas e impede centenas de jovens em Gaza de sequer sair do território para estudar no estrangeiro
* A BBC noticia que Organização Mundial de Saúde acusa o bloqueio de causar “acelerada degeneração” do sistema de saúde. A OMS nota ainda que em dezembro de 2009 27 doentes árabes morreram à espera de autorização para sair do cerco. A BBC noticia que a Food and Agriculture Organization (da ONU) reporta que 180 milhões de dolares de bens agrícolas foram destruidos em Gaza na operação Cast Lead de 2008/2009. A BBC noticia finalmente que no bloqueio de gaza, israel impede vários bens perigosos de entrarem em território palestiniano, tais como: sumo de fruta, compota, chocolate e brinquedos
Organizações Israelitas documentam também os abusos do seu governo. A saber:
* A organização Physicians for Human Rights – Israel, documenta os abusos, ilegalidades e humilhações em gaza. Entre os exemplos de humilhações documentas estão a separação forçada de uma criança doente dos seus pais, ou obrigar uma mãe de uma criança doente a despir-se em frente de câmaras sobre o pretexto de vigilância
* A organização israelita B’Tselem diz que o objectivo anunciado do cerco é “derrubar o governo do Hamas e forçar a libertação do soldado Gilad Shalit” e portanto por definição “um caso de castigo colectivo e logo uma violação do direito internacional”. A B´Tselem relata “fortes restrições nas importações”, e a “proibição de importação de materiais de construção”. Algo que é particularmente cruel após a operação Cast Lead que “destruiu completamente 3500 casas” e “danificou muitos mais milhares” e causou “danos severos a infrastruturas” de gaza. A organização israelita acusa o seu governo de ser responsável por “cortes de energia” que impedem a operação de poços de centrais de tratamento de água, impossibilitando a obtenção de água para beber. Como resultado “93% dos poços” estão poluidos a niveis acima do recomendado pela Organização Mundial de Saude. O cerco envolve também uma “proibição quase completa das exportações” e causa “sérios danos à agricultura e pescas”. O resultado final do cerco de israel a gaza, segundo a organização B’Tselem é “colapso económico e pobreza severa” – como não podia deixar de ser.
* A Cruz Vermelha por seu lado (essa notória organização terrorista), acusa o cerco de ser “uma clara violação das obrigações de israel ao abrigo do direito internacional”. A Cruz Vermelha nota que o cerco que Israel impõe impede os habitantes de Gaza de cultivarem numa área que cobre “um terço do terreno agricola de Gaza” . Nota ainda que 90% dos pescadores de gaza são pobres (menos de $190 por mês) ou muito pobres (menos de $100 por mês). Finalmente, numa área particularmente sensível para a Cruz Vermelha, esta lembra que os cortes de energia impostos por isarel “causam sérios riscos às vidas dos doentes” e os bloqueios aos combustíveis que alimentam os geradores emergência “tornam o caso ainda pior”. De facto a cruz vermelha diz que “ o estado do sistema de saude em Gaza nunca esteve tão mau”.
Assim na noite de 31 de Maio para 1 de Junho quando uma série de pessoas de diversas origens tentaram furar o cerco acima descrito, israel respondeu. Respondeu enviando comandos armados para atacar um barco civil em águas internacionais e matando 9 pessoas a bordo. Aqui e aqui. Naturalmente o pretexto para as mortes foi dado: auto defesa. Está claro: um estado criminoso, envia comandos armados para cometer um crime (atacar civis em águas internacionais) para defender outro crime (o cerco de gaza), e quando os ocupantes do barco se tentam defender os comandos ganham o direito de matar em auto-defesa. É surreal que qualquer criminoso que assassine alguém que o tenta impedir de cometer um crime para defender outro crime possa evocar o noção de auto-defesa.
As reacções europeias mais comuns foram as de preocupação e de “uso excessivo de força” , aceitando portanto implicitamente a natureza da acção, aceitando que israel pode atacar navios em águas internacionais, que israel tem direito de decidir o que entra ou não em gaza. No fundo: aceitando o cerco e o crime para o defender mas criticando a violência usada(chama demasiada atenção…). O presidente Obama apressou-se no entanto a ser imparcial e a explicar que condenar israel seria “prematuro” pois israel tem “legítimas preocupações de segurnaça” na gigantesca prisão que ilegalmente mantém. Face à enorme pressão internacional a pedir que israel cometa os seus crimes de forma menos violenta, israel rapidamente veio explicar que “rejeitava qualquer inquérito internacional”, porque naturalmente o mundo tem que aceitar (e de facto aceita) que:
i) Israel faz o que quiser nos territórios ocupados e tem toda a legitimidade para manter os palestinianos na sua jaula e controlar o que de lá entra e sai.
ii) Israel tem o direito de cometer crimes e matar pessoas que se defendam contra os ataques ilegais para defender o crime original
iii) Cometido o crime, israel não responde perante ninguém.
Mas nada disto fica por aqui. Por exemplo, pouco comentado, mas não menos verdade, foi que uma semana depois israel voltou a matar. Mas desta vez dentro da prisão. Um navio israelita matou 4 mergulhadores palestinianos num pequeno navio de pesca que alegadamente estariam numa missão de treino terrorista. Aqui, aqui, aqui, e aqui. O pretexto de auto-defesa torna-se ainda mais inaplicável (se tal coisa é possível), mas não importa porque o dono da jaula faz o que quiser com os seus habitantes. A falta de atenção dada ao segundo caso não é surpreendente uma vez que é aceite que os palestinianos estão sob jurisdição do estado que ocupa o seu território.
E assim continuará a ser com a conivência de todos os países da união europeia, que continua a tratar israel como um forte aliado (aqui e aqui) e ajudar os crimes ao vender milhões de euros de armas a israel. Assim continuará, e como disse a ex-presidente da Irlanda e actual comissária dos direitos humanos da ONU:

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