Inquéritos?
Posted by Filipe Gracio on March 5th, 2010 filed in CrónicasAgora que os despojos da guerra do iraque começam a ser distribuídos foi a vez de Gordon Brown ser ouvido nos inquéritos internos do reino unido a propósito da dita guerra. Os inquéritos são louváveis e a guerra diz-nos respeito. Todos nos lembramos que o nosso amigo e ex-primeiro ministro foi devidamente reconpensado pela ajuda diplomática com o cargo de presidente da comissão europeia. O envolvimento do dito sr está ainda por explicar e nós, obdientemente, temos correspondido com o maior apoio político para que ele desempenhe o seu cargo.

Queria só salientar algumas das coisas que o Sr Brown disse.
Uma delas foi que “[a guerra] foi uma decisão certa, pelos motivos certos”. Os motivos que foram apresentados foram as famosas “wepons of mass destruction”, que Colin Powel apresentou (mentindo) às Nacoes Unidas. Todos sabemos agora que não havia quaisquer armas de destruicao massissa, mas talvez o Sr Brown ainda não saiba, está certamente desactualizado. Desculpamos o erro, talvez então o motivo seja outro. De facto outro motivo normalmente apresentado é a noção de que o iraque estava a dificultar a colaboração de inspecções das nações unidas. É o motivo apresentado, mas sofre do problema de ser uma grave distorção da verdade. Pelo menos a acreditar no que diz o próprio inspector das Nações Unidas, Hans Blix, que dizer ser “falso” o argumento de que o iraque estava complicar as inspecções. Naturalmente Saddam era um Sr detestável, mas isso nao iliba o Sr Brown / Blair / Bush / Barroso etc, de nos terem mentido, e continuarem a mentir.
Outra afirmação de Brown: “não podemos ter uma comunidade internacional se houver terroristas que ignoram as regras ou Estados egressores que não cumprem a lei da comunidade internacional”. Estamos todos de acordo. Há só dois problemas: Primeiro, isto não justifica de nenhuma forma a invasão unilateral do iraque, decidida fora do âmbito das nações unidas por um punhado de países. Se justificasse, então qualquer país (digamos a rússia por exemplo) poderia sentir-se justificado em invadir (por exemplo) israel por este estar em constante violação da lei internacional nos territórios ocupados. Eu não acho que isso seja justificával no caso de israel (e suspeito que Brown também não), e portanto é obvio que não é justificável no caso do iraque.
Segundo problema: a afirmação do Sr Brown é especialmente hipócrita porque a guerra que ele procura justificar com a pretensa violação da lei internacional por parte do iraque, ela própria (a guerra) foi em violação da lei internacioal. Por isso, as palavras do Sr Brown serviriam também para justificar uma ivasão do reino unido. Claro que não justifica, e claro que não justifica no caso do iraque também.
O Sr Brown, que deseja que se “cumpra a lei da comunidade internacional”, explicou também, que “teve até ao fim esperança que as coisas se pudessem resolver pela via diplomática” mas as coisas não resultaram porque “as Nações Unidas estavam a impedir uma resolução do assunto”. Ou seja, o resto mundo não estava a querer seguir a vontade inglesa (coordenada do outro lado do atlântico). É’ essa a definição de “lei da comunidade internacional” que o Sr Brown quer ver cumprida.
Por fim, e de novo quanto à lei, o Sr Browm assegura-nos que o Procurador geral ingles garantiu que a guerra era legal. Isso é óptimo. Da proxima vez que algum país pensar em invadir um outro, desde que tenha um funcionário interno a ganrantir a legalidade, está tudo bem. Por uma lógica semelhante podemos imaginar que se o Procurador Geral espanhol decidir que é legal invadir portugal, então tudo estará de acordo com “as leis da comunidade internacional” e que isso não é de todo um caso de “um Estado agressor”. Imagino que na alemanha nazi dos anos 30 também tenha havido alguém que tenha justificado a invasão da polónia como legal.
O discurso é de uma hipocrisia assustadora. Houvesse alguma justiça séria, todos estes senhores correriam o risco de ser postos a julgamento (como Karadzic e Milosevic por exemplo). Felizmente para eles, a justiça não se aplica aos mais fortes. O que nos resta, a cada um de nós, é impedir que a europa (que agora pretensamente tem uma diplomacia comum), que o nosso dinheiro, que o nosso exército, seja alguma vez mais chamado para uma vergonha deste tipo.
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