O movimento slow da mentalidade nacional?

Posted by Luis Azevedo Silva on February 25th, 2010 filed in Crónicas

Actualmente estou a ler vários livros. Sou uma espécie de Marcelo Rebelo de Sousa mas na vertente amadora. Leio informações mais técnicas ou documentais, o que não implica um desdobramento emocional, que podia causar a confusão entre as diferentes personagens dos diversos romances ou dramas.

Um dos livros é sobre o movimento slow e a necessidade de abrandarmos o nosso ritmo de vida. Não só na vertente do trabalho mas também na vertente social, citadina, sexual, familiar e gastronómica. É um livro interessante que nos dá os dois lados da história: como as pessoas aumentaram a velocidade em tudo o que fazem (porque fazer muito está associado a eficácia e inteligência) e como agora se apercebem que o contrário é bem melhor e proveitoso. Resumindo: quantidade não é qualidade, já dizia a velha máxima popular. É bom ser rápido quando assim o é exigido mas não a toda a hora.

Optei por concentrar-me na vertente gastronómica por um motivo simples: não me identifico com os estilos de refeições descritas no livro. E percebi que, em Portugal, só nos últimos 10 anos (?) entrámos nesta onda. Eu não fui criado a comer fast food sentado no sofá. O nosso sistema era o de “comer juntos à mesa, num determinado horário”. Não só comi comida feita pela mamã, como comi em família. E reparei o mesmo numa recente visita a Itália. O hábito (saudável) mantém-se.

Isto para levantar uma dúvida: é possível que isto seja um espelho do atraso industrial de Portugal (dos PIGS – Portugal, Italy, Greece, Spain, como nos tratam no mundo desenvolvido)? É possível que isto seja um reflexo do nosso atraso cultural? Vejamos: os “mais velhos” tiveram mães presentes porque estas não estavam inseridas nos mercados de trabalho. A mãe ficava em casa a cozinhar e a escolher os melhores produtos (que seriam, na altura, fruto da exploração agrícola, directamente do coração da Terra).

E o estilo perpetuou-se: a mulher continua a ser “mulher”. A progenitora que toma conta da família. Provavelmente, cada vez menos mas ainda o é. A juntar à sua carreira, continua a acumular o papel de mãe. Que faz a comida para a família, que vai ao supermercado escolher os ingredientes e que os serve à mesa depois de um dia de trabalho.

O objectivo não é defender o ponto de vista conservador de que é esse o papel da mulher nas grandes famílias. É até o contrário: estaremos ainda tão atrasados nesta mentalidade que não percebemos o peso da responsabilidade que as mulheres têm de carregar durante a sua vida?


One Response to “O movimento slow da mentalidade nacional?”

  1. Vítor Says:

    Olá! Este post fez-me pensar em algo bastante caricato. Eu que também não fui habituado à chamada comida rápida, e que agora também não tenho a mamã comigo para fazer a comida todos os dias, vivo uma vida demasiado fast por ter de cozinhar e não comer fast food.
    Mas é o velho ciclo…se comesse fast food sobrava-me mais tempo no qual, em vez de descansar ia cansar-me mais, portanto, vou continuar a cozinhar e tirar um tempo para ler o livro.

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