“[Quando] um soldado, por razão nenhuma, se sente à vontade para matar 3 crianças à frente do seu pai, depois matar uma mulher idosa e ainda destruir a ambulância que os veio ajudar [...] isso revela algo sobre a alma de um exército”.
- Desmond Travers.
Desmond Travers é um dos responsáveis pelo relatório da ONU sobre o massacre de 2008/2009 em Gaza. Mas então o que tem feito o exército israelita? E de que forma é a Europa vergonhosamente ajuda em tudo isto? Comecemos por perceber bem a gravidade do crime de que somos cúmplices.
A Cruz Vermelha diz que a ocupação e cerco de Gaza, que precede a invasão de 2008/2009, são “uma clara violação das obrigações de Israel ao abrigo do direito internacional”.
A Human Rights Watch (H.R.W.) diz que o cerco é uma “violação da lei internacional” e um “castigo indiscriminado contra uma população civil”.
A ONU diz que o cerco de gaza ”retira aos civis Palestinianos os seus meios de susbsistência, emprego, habitação, água e liberdade de movimento” e que é um “possível crime contra a humanidade”.

A Amnistia Internacional (A.I.) diz que o cerco é um “castigo colectivo de 1.4 milhões de palestinianos em clara violação de Lei Internacional”. Salientando que 80% das pessoas em gaza estão, por causa do cerco, “dependentes de ajuda internacional”. O cerco Israelita causa ”desemprego em massa, pobreza extrema, e insegurança alimentar”. No cerco imposto “as forças israelitas bloqueiam e impedem prepositadamente a chegada de ajuda humanitária. Atacaram comboios humanitários, centros de distribuição de ajuda e pessoal médico”. Israel prende em gaza “estudantes e trabalhadores que necessitam de viajar para continuar estudos ou empregos” e também ”pessoas com doenças sérias que necessitam de cuidado médico”. Um exemplo relatado é o de Samir al-Nadim que foi proibido de sair do Hospital em gaza e cuja operação ao coração foi atrasada 22 dias acabando por morrer no hospital em Nablus.
Este é um cerco e uma ocupação que a Europa parece estar determinada em manter (a isso voltaremos). O cerco permite também ao exército israelita lá operar com impunidade. E o que se passou na ultima operação militar em 2008/2009?
Segundo a A.I. um cessar fogo foi quebrado quando israel entrou em gaza e matou seis Palestinianos a 4 de Novembro de 2008. Começando com a violação israelita, as hostilidades progrediram até à operação de 27 de Dezembro quando Israel invadiu e destruiu Gaza. A ONU diz que a invasão de 2008/2009 foi um “ataque deliberadamente desproporcionado concebido para castigar, humilhar e aterrorizar uma população civil” assim “aumentando o seu sentimento de dependência e vulnerabilidade”.
Nesse ataque, a A. I. diz que foram mortos 1400 palestinianos, crianças e adultos; “milhares de casas, escritórios e espaços públicos foram destrúidos. Bairros inteiros arrasados. Electricidade, água e esgotos gravemente danificados”. Destruição “prepositada e deliberada que não pode ser justificada por fins militares”. Mas a escala do crime fica mal explicada por estes números e se ignorarmos alguns dos exemplos de crueldade demonstrada.
A saber (citações dos relatórios da H.R.W. e da A.I.) :
Alguns são os relatos de soldados israelitas matarem civis com bandeiras brancas onde é dito que “em cada um dos casos, as vitimas estavam paradas ou a andar, ou em veiculos lentos com outros civis desarmados e estavam a tentar comunicar o seu estatudo de não combatentes acenando bandeiras brancas”. Num dos incidentes, a 7 de Janeiro, “duas mulheres e três crianças estavam em pé fora de casa [...] segurando pedaços de tecido branco quando um soldado israelita abriu fogo, matou duas raparigas, de 2 e 7 anos, e feriu a avó e a terceira rapariga”. Testemunhas, provas balísticas, e provas forenses ”indicam que o soldado disparou depois de saber que se tratavam de civis desarmados”.
Mas na verdade “centenas de civis foram mortos por ataques israelitas usando armas de extrema precisão e longo alcance”. As vitimas “não foram apanhadas em fogo cruzado ou escondendo combatentes mas foram antes mortas nas suas casas enquanto dormiam, faziam tarefas diárias ou brincavam. Vários civis, incluindo crianças, foram mortos à queima roupa quando não eram de qualquer forma ameaça para os soldados. Médicos e ambulâncias foram repetidamente atacados quando socorriam feridos, resultado em várias mortes”. Por exemplo a 6 de Janeiro ”vinte e dois membros da família al-Daya, a maioria mulheres e crianças foram mortas quando um F-16 bombardeou a sua casa”.
O relatório da H.R.W. diz que o exército de Israel “detonou repetidamente fosforo branco [uma arma explosiva indiscriminada] no ar sobre áreas populadas ferindo e matando civis, atingido entr outros, uma escola, um mercado, um armazém humanitário e um hospital”. O relatório diz ainda que o uso desta arma em áreas densamente povoadas é uma ”indicação de crimes de guerra” e que o seu uso foi um de “padrão e politica e não de acidente ou circunstância”. Israel “continuou a usar a arma apesar de avisos repetidos da ONU sobre o perigo para civis”. A A.I. completa os testumunhos desta arma usada ilegamente com o exemplo de “Abu Halima e das suas quatro crianças que foram mortos no ataque à sua casa”, e de como depois “os soldados israelitas mataram à queima roupa os seus primos que tentavam levar as crianças queimadas para o hospital”.

O exército não se fez rogado em atacar pessoal médico e humanitário. Por exemplo a escola da primária instalada pela ONU foi atacada. Nesse ataque “duas crianças, Muhammad al-Ashqar e o seu irmão Bilal, (idades 5 e 7) foram mortos” juntamente com dezenas de outros mortos e feridos. Exemplos de ataque a pessoal médico (para além do ataque directo a hospitais) estão também relatados. Num caso “três médicos - Anas Na’im, Yaser Shbeir and Raf’at al‘Al – foram mortos a 4 de Janeiro por um missil enquanto se aproximavam de dois feridos. Um rapaz de 12 anos, Omar Ahmad, que lhes mostrava o caminho, foi também morto.”
E foi assim que morreram a maioria das 1400 vitimas do ultimo massacre em gaza, civis, desarmados, mulheres e crianças. Os exemplos abundam e não vale a pena citar mais casos idênticos e revoltantes dos relatórios para perceber o padrão de comportamento do exército que cerca e ocupa os territórios palestinianos e, em especifico, gaza.
E assim chegamos à nossa responsabilidade em tudo isto. Como tem ajudado a Europa? Em primeiro lugar, a Europa vende ao exército parte das armas necessárias para que tudo isto possa ser levado a cabo. A última estimativa publicada no relatório Fueling the Conflict da A.I. dava conta de, em 2008, uma venda anual de duzentos milhões de euros em armas para Israel. Em segundo lugar, a Europa assiste com ajuda diplomática por exemplo agora manifestada com a alemanha e outros estados europeus a prepararem-se para se opor ao pedido de reconhecimento de Estado que os Palestinianos pretendem fazer junto da ONU. Mas o exemplo mais recente de assistência aos crimes começa a ser um embaraço humilhate para qualquer europeu.

Há pouco mais de um ano, vários barcos civis com passageiros de várias nacionalidades (incluindo da UE), foram atacados em águas internacionais por comandos israelitas. Num barco de bandeira turca os comandos mataram 9 civis a bordo. O barco navegava para gaza com ajuda humanitária e os turcos, insuficientemente civlizados para serem aceites na EU, exigiram um pedido de desculpas de Israel e cortaram relações diplomáticas desde então. Da Europa, claro, nem um pio. Acontece que este ano outros barcos civis tentam de novo quebrar o cerco (que é uma “violação da lei internacional”) desta feita partindo da Grécia. Mas agora Israel conta com a ajuda preventiva dos governos Europeus que não aceitam que o crime seja questionado e interrompido e que estão sempre disponiveis para ajudar na sua implementação. Assim a policia grega foi instrumentalizada pelo seu governo, às ordens de Israel e com a complacência dos outros governos europeus, para impedir os barcos de sair do porto. Igual fez o governo Francês que proibiu civis de irem de avião para israel para participar em demonstrações. Demosntrações claro são só para os outros, e não são para ser toleradas se forem um embaraço para os governos da Europa. E assim Israel consegue que a europa seja o seu policia à distância. É a isto que estamos reduzidos. Devia haver limites.

Os civis em gaza, vitimas de “pobreza extrema” e de um “possível crime contra a humanidade”, que são alvos de uma estratégia “concebida para castigar humilhar e aterrorizar uma população civil”, podem admirar à distância a generosidade da Europa e o seu compromisso humanitário na Líbia na sua missão “destinada a proteger civis”. Mas se por acaso os habitantes de Gaza notarem alguma hipocrisia quando a europa insiste em ajudar a tornar possível o seu sofrimento, podem esperar enquanto (nas palavras de Mary Robinson, ex-comissária da ONU, ex-Presidente da Irlanda, e premiada pela A.I.) “toda a sua civilização é destruída”. Perante os nossos olhos e com a nossa ajuda.
(fotografias de gaza, do site do jornal inglês Guardian)